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Fred e Pratto

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 403 comentários


Fred e Pratto podem jogar juntos. Mas e Cazares? E Robinho? E o 4-2-3-1, tão amado por Marcelo?


Fred e Pratto


Como não é de se espantar, as eternas, já batidas, cansativas discussões “Fred e Pratto podem jogar juntos?”, apesar do excesso em termos quantitativos, de tempo gasto com as arengas, limitaram-se a um universo paupérrimo no que se refere aos argumentos utilizados; ao universo de informações, considerações, pontos a serem debatidos.


Para ponderar apropriadamente sobre o tema – principalmente quando se despende horas supostamente esmiuçando-o –, em inúmeras acepções, não se deve apenas levar em conta as características dos dois atletas mencionados; a existência, ou não, de uma espécie de compatibilidade entre ambos. Não estamos falando de vôlei de praia. Estes dois excelentes atacantes, por mais talentosos que sejam, não jogam sozinhos. Existe um conjunto. Eles fazem parte de um time. Há todo um complemento para essa turma da frente. Momentos ofensivos e defensivos, compreendidos de maneira ampla, com as devidas participações de todas as peças, hão de entrar na roda.


Feito o preâmbulo, e antes de um aprofundamento da análise, tentemos resumir num amigo do aforisma: Fred e Pratto podem jogar juntos; mas no 4-2-3-1, com Cazares e Robinho também integrando os titulares, fica mais complicado.


Em 2014, atuando pelo Vélez, o atacante argentino viveu um dos seus principais momentos na carreira. Chegou a ser eleito o melhor jogador do seu país. Na época, não era escalado como centroavante. O cara mais adiantado daquela equipe, o homem gol? Mauro Zárate. Pratto funcionava como uma espécie de segundo atacante: por trás do “9” mais típico; com liberdade para se movimentar, flutuar, cair pelos lados – mas, vejam: não exatamente como um ponta, um homem de beirada; simplesmente uma peça ofensiva com orientação de cair pelos flancos periodicamente. Mais do que a apreciação subjetiva dos atributos de cada um, no plano factual, este exemplo prático, consistente por diversas razões já serve para, em si, demonstrar que não é nada do outro planeta, mirabolante, pouco factível a ideia de juntar os dois nomes que intitulam esta coluna. Mas aí chega a indagação: e Robinho? E Cazares? E o 4-2-3-1?


Para encaixarmos Fred e Pratto juntos, a priori, o esquema mais adequado seria o 4-4-2. Em duas versões: ou na que contempla duas linhas de quatro (à inglesa, é possível falar aqui também em 4-4-1-1) ou na que possui um losango no meio e poderia ser chamada de 4-3-1-2. Na primeira, o meio seria construído com dois volantes centralizados e dois meias ofensivos abertos. Estes futebolistas das beiradas, contudo, precisariam de um tipo de dinamismo, fluência, entrega, capacidade de ir e voltar que, hoje, não me parecem compatíveis nem a Robinho, nem a Cazares. Clayton, Luan, Maicosuel, Hyuri, apesar de inferiores tecnicamente a esta dupla tão qualificada, combinariam mais com esse labor.


Passando ao 4-4-2 com losango no centro: neste desenho, teríamos três meio-campistas – por exemplo, Carioca, Donizete e Urso; um armador, um homem de ligação, um ponta de lança, o número “1” preconizado por Zagallo – poderia ser Cazares ou Robinho (o primeiro talvez seja, digamos, mais tipicamente, um cara desta função); Fred e Pratto na frente. Logo, escolhendo este sistema – e partindo do princípio que o “objetivo” aqui é “escalar” Fred e Pratto –, Robinho ou Cazares precisariam deixar o time.


E por que no 4-2-3-1 não daria para acomodarmos essa turma toda? Simples: porque, via de regra, neste esqueleto é preciso que no mínimo dois dos integrantes do quarteto ofensivo tenham boa aptidão para recompor. E nem Fred, nem Pratto; tampouco Robinho, e Cazares, carregam exatamente esta tendência. Em coluna vindoura concluo o tema, acrescentando novos pontos e sugerindo aquela que é, para mim, a escalação ideal.

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O problema azul

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 323 comentários


Ótimo treinador. Elenco forte. Qual seria então o problema do Cruzeiro?


O problema azul


Assim como Tite, Mano Menezes gosta de combinar, pelos lados do campo, no setor de armação, um jogador com características de meia, com outro que seja mais um atacante. Exemplos práticos, reais: no ano passado, quando treinava o Corinthians, no seu decantado 4-1-4-1, Tite escalava, pelo flanco direito da segunda linha de quatro, Jádson (meia), e pela ponta canhota, Malcom (atacante). Já no Cruzeiro 2016, Mano, no seu 4-2-3-1 tem optado, na composição de seu trio de homens de ligação, por Robinho (meia) aberto pelo lado direito, e Sóbis (atacante) ocupando o setor esquerdo.


Detalhe importante: os dois treinadores citados não apenas demonstram a preferência aqui apregoada na prática, na escalação de suas equipes; também já as defenderam aberta e claramente em diferentes entrevistas. É primordial a lembrança desse detalhe no sentido de que ele afasta a ideia de que as escolhas neste espaço comentadas poderiam não partir de uma visão teórica de futebol que, de algum modo, independe em certa medida das circunstâncias, do elenco que se possui; portanto, não versamos neste texto em torno de opções oriundas do acaso ou recheadas de incerteza no que se refere às suas motivações; tratam-se de visões, filosofias, concepções que os profissionais em tela carregam consigo pela vida, chegando a cada um de seus trabalhos, a priori, inclinados, no mínimo com a tendência de escolherem algo na linha descrita.


Na coletiva que sucedeu a vitória sobre o Botafogo pela Copa do Brasil na semana passada, indagado a respeito da escolha de Rafinha para aquele jogo – em detrimento, por exemplo, de Alisson –, Mano escancarou a idiossincrasia que discutimos nesta coluna. O professor disse, na oportunidade, que queria dar oportunidade a Élber no cotejo em tela. Como este jogador tem características de atacante, e atuaria aberto pela direita, Mano justificara que, pela ponta canhota, para contemplar a combinação que o agrada, precisaria de um futebolista com atributos que se aproximassem mais daqueles típicos de um meia. E entre as alternativas que tinha, entre Rafinha e Alisson, por exemplo, o primeiro se acercaria mais das características que procurava.


Quais são os fundamentos por trás destas predileções, destas concepções de Mano e Tite? Para eles, a combinação de qualidades díspares, a soma de estilos, se mostra interessante; como se os diferentes, em boa medida, se completassem. Além disso, a presença de um meia aberto por um dos flancos propiciaria que esta peça flutuasse, confundisse o adversário; saísse da beirada em momentos pontuais e centralizasse para, neste setor, dar ao seu conjunto a superioridade numérica. Sem o acompanhamento do lateral com quem usualmente bate de frente quando permanece pela ponta, este jogador tem grandes chances de ver-se, quando centralizado, sem um marcador: assim, eis nova vantagem desta estratégia, em termos teóricos. Para completar: ainda que o lateral inimigo perseguisse este híbrido de ponta e armador que afunila, caso o homem de beirada daquele setor da equipe oponente não estivesse fazendo o devido acompanhamento, o próprio lateral do seu time poderia encontrar uma avenida aberta para atacar – com o deslocamento do citado marcador adversário.


O futebol, contudo, não é afeito a determinismos. Não é tão amigo das teorias com ares absolutistas. Se afasta, como poucos, do campo da ciência exata. Logo, não me parece que a aplicação “a qualquer preço” – não digo que seja exatamente este o caso do Cruzeiro –, a “imposição” de uma preferência sem o devido jogo de cintura, uma bem-vinda flexibilidade, uma apurada percepção para avaliar as circunstâncias e dançar conforme a música, seja o ideal. Em grande medida, em muitos casos, concordo com os dois treinadores aqui citados. Em muitas situações, me soam bem essas teorias neste espaço arroladas. Em outras, porém, sua contemplação pode não ser o melhor caminho. E depois de muitos jogos de “teste”, tenho a sensação, hoje, que as presenças de Robinho de um lado, e Sóbis do outro, combinadas, simultaneamente, contribuem para o Cruzeiro ficar carente de velocidade, dinamismo, fluidez – problema que, na minha visão, os celestes têm enfrentado no momento ofensivo. Isso pode passar, por exemplo, pelo fato de Sóbis, apesar de ótimo avante, não ser exatamente um ponta agudo, vertical, veloz – como Malcom, que embora inferior ao jogador do Cruzeiro, possui este estilo. Não digo com isso que essas opções tenham de sair do time. Não tiraria, de forma alguma, Robinho da equipe titular, por exemplo – neste momento, diga-se. Talvez seja apenas o caso de utilizá-las de modo distinto, compondo o todo de uma maneira diferente. Em coluna vindoura explico como e prossigo no assunto.

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Rei Midas?

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 485 comentários


Tite é craque. O melhor do país disparado. Mas essa babação de ovo insensata em cima dele, além de chata, prejudica o debate e premia o comodismo…


Rei Midas?


Quando, no futebol brasileiro, o sujeito entra numa espiral de resultados favoráveis… Benza Deus! A chance de acabar intocável, de os merecidos elogios virarem exagerados superlativos, é enorme. Afinal, a mania de superestimar, de reduzir, idolatrar, querer encontrar respostas fáceis, definições de simples digestão, é especialidade da casa. Raciocínio análogo vale no que se refere ao hábito de procurar bodes expiatórios; de condenar peremptória, definitivamente; de transformar alguns defeitos em inépcia total.


No nosso cenário de técnicos, há muito não se via uma unanimidade tão absoluta como aquela que reina em torno do nome de Tite. Em grandíssima medida, justa. De fato, o gaúcho é, com folga, o maioral do país em sua função. Sem dúvida, se mostra como o melhor nome tupiniquim para comandar nossa seleção; como um sujeito totalmente adequado, à altura do cargo. Ainda que com atraso gigantesco, e depois de erros grotescos, a meritocracia foi premiada com a chegada de Tite à CBF. Mas daí a tornar-se perfeito, incólume a qualquer possível e imaginável questionamento/crítica/discordância, inoxidável, acima do bem e do mal… O ponto principal é: não se trata nem de defender que o professor faça jus a reprimendas sólidas, graves, levando-se em conta o que realizou no nosso escrete até agora; a aceitação sempre a priori, o aplauso que independe da análise, da reflexão; a perda do contraditório, do próprio debate, em si, tem ocorrido além do que deveria. Afinal, qualquer coisa que o sujeito produz, decide é, para muitos, uma ordem divina, uma espécie de acerto tácito; simplesmente engolido automaticamente; sem mastigação, ruminação. Como se o cérebro tivesse entrado em estado de osmose, piloto automático. Permanecesse tirando um cochilo. “Com o Tite aí, posso descansar. Ele pensa por mim…”.


A evolução prática, em termos de conjunto, organização, aconteceu – pior que estava, também… O saldo desses dois primeiros jogos da era do nosso rei foi positivo não só em termos de resultado – embora também os méritos no que tange ao rendimento tenham sido desproporcionalmente louvados por muitos. Portanto, como a coisa funcionou, coletivamente, reconheço que é preciso dar um passo atrás, ter cuidado com o tom, a maneira de realizar algumas reflexões. O que aconteceu diante de Equador e Colômbia não há de ser descartado, não pode ser descontextualizado de determinadas análises. Entretanto, o fato de termos ido bem nesses cotejos não deve simplesmente inviabilizar, calar, necessariamente, qualquer discussão.


Atuar com Paulinho e Renato Augusto como peças centrais à frente de Casemiro no 4-1-4-1 da amarelinha segue me parecendo inadequado. Longe do ideal. Pobre, burocrático – tendo em vista o que temos à nossa disposição. A formação neste setor, hoje, que mais tende a me agradar reuniria Philippe Coutinho e Fernandinho. Existe no Brasil uma disposição em certos debates táticos de achar que armadores mais agudos, claramente ofensivos – como o mencionado atleta do Liverpool – não podem preencher o centro da segunda linha de quatro dentro do sistema em exame – nem ao lado de um parceiro mais “comportado”. Balela. Entre incontáveis exemplos possíveis para desmistificar esta tese encontramos o Manchester City de Guardiola, que tem atuado frequentemente com De Bruyne e David Silva neste miolo do campo (à frente de Fernandinho, que lá joga em diferentes funções, mas, prioritariamente, como volante entre linhas). Na verdade, o “nível de ofensividade” dos Citizens nesta formação que assinalei é claramente superior ao que propus para o nosso mandachuva, ou seja… Não idealizo neste texto algo mirabolante.


Existem algumas outras ponderações/críticas que faria com relação ao que Tite disse/fez até aqui como nosso treinador. Escalações, convocações, teorias explanadas em entrevistas… Cenas para os próximos capítulos. Por ora, lembremos: viva o debate, a liberdade de criticar e o bom senso. Ninguém acima do bem e do mal. Ninguém como pária da sociedade, desproporcionalmente, só por alguns defeitos…

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Hoje, lançamento imperdível: biografia do Rei! Confira entrevista com o maior da história do Galo!

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 53 comentários


Hoje, lançamento imperdível: biografia do Rei! Confira entrevista com o maior da história do Galo!


Nesta

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sexta, 16, às 19 horas, acontece o lançamento da biografia de Reinaldo. Sim, o Rei. O original. O maior jogador da história do Galo. Um dos melhores centroavantes de todos os tempos do futebol mundial. Craque. Gênio. E com trajetória repleta de acontecimentos que, sem dúvida, tornam a biografia imperdível. Contusões, injustiças sofridas pela arbitragem e na seleção brasileira; envolvimento com cultura e política; enfim… Um cara que, além de ser indescritível, um mito, dentro das quatro linhas, tem o que dizer, saiu do lugar-comum, não permaneceu numa bolha na qual muitos ídolos constroem suas trajetórias – brilhantes no que se refere ao cumprimento da profissão, insípidas enquanto personagens, figuras humanas. Sem dúvida, não é o caso de Reinaldo. O valor de sua biografia, em função da peculiaridade da sua vida, é análogo a de um Heleno, um Garrincha; Sócrates, Maradona, Cantona, George Best…


Philip Van, filho do rei, grande amigo e atleticano conhecido pelo amor que possui pelo clube, é o autor. Mais um fator, portanto, que torna a obra interessante, diferente: um filho escrevendo sobre o pai. E posso dizer pelo que conheço do projeto: não esperem um relato chapa-branca devido ao vínculo familiar.


Seguem abaixo as informações do evento. Estarei lá com toda certeza, depois do Bastidores. Disponibilizo também entrevista exclusiva que fiz com Reinaldo e o escritor do livro. Um papo sobre ditadura militar, perseguição política, futebol, seleção, rivalidade, os polêmicos clássico diante do Flamengo… Vale a pena!


Clique aqui e ouça a entrevista exclusiva!


Lançamento da biografia do Rei em Belo Horizonte


Dia: 16 de setembro, às 19h.


Local: Auditório da sede do Atlético (Av. Olegário Maciel, 1516, Lourdes).


Entrada: Gratuita, mediante retirada de convite no local. O auditório tem capacidade para 250 pessoas.


Preço do livro: R$ 49,90

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A morte de J.P. Cuenca – e do Rio de Janeiro

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 107 comentários


Um Rio de verdade, sem o filtro infantilizado, maquiado, redimido e/ou populista, pouco intelectualizado da mídia…


A morte de J.P. Cuenca – e do Rio de Janeiro


O Rio da Vênus Platinada. Da poesia rasteira de Manoel Carlos – com sua salada de atum, seus diálogos canhestros, sua emulação parcial e ruim de Woody Allen, sua pretensão pessimamente sucedida de unir o popular com “toques de intelectualidade”. O Rio da falsa felicidade, do clichê “Brasil alto astral”, de uma leveza que é, no fundo, carregada – vontade de ser aceito, de agradar; o viver pelo que representamos Schopenhaueriano. O Rio do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda – se há discussões sobre a conotação que este queria dar à expressão, conforme tratou recentemente Fernando Gabeira, aqui me refiro sobretudo àquela espécie de bondade fabricada, pequena, oriunda de nossas fraquezas, como Nietzsche tão bem apreciou; “brasileiro domado”, espírito de rebanho, para remeter ao gênio alemão. O Rio do oba-oba de Galvão Bueno e, no fundo, de quase toda a concorrência nos canais abertos: tapinhas nas costas, críticas selecionadas, direcionadas, raras; jogos de interesses, concessões, ufanismo e empolgação tão exageradas quanto fakes, forçadas, atuadas. O Rio do comunicador tosco, daqueles programas típicos de “jornalismo criminal”: simplório, popularesco, eleitoreiro; “lugar de bandido é na cadeira”, “tem de matar!”; exército na rua, preconceito, minimização.


Se a saga olímpica aguçou ainda mais os excessos de uma mídia, via de regra, fraquíssima; se os lugares-comuns, as platitudes proliferaram mais do que japoneses tirando foto em pontos turísticos da Europa, ou americanos conquistando medalhas de ouro em escala industrial, João Paulo Cuenca, “morto”, surgiu para nos levar para o outro lado. Na melhor tradição de Rubem Braga, João do Rio, Machado de Assis, Nelson Rodrigues: de conhecer a alma do carioca; de falar do local e atingir em cheio o universal. Original, profundo, longe dos estereótipos, das obviedades. Um novo olhar sobre o Rio do COI, da FIFA, de Eduardo Paes e das empreiteiras – não somente.


Assistindo ao filme “A morte de J.P. Cuenca” fui tomado pelos dois tipos de arrebatamento que, grosso modo, considero como os possíveis para a arte genial. O da fruição, do contato direto com a ideia; grandes verdades sobre o mundo, uma sociedade, a natureza humana; normalmente proposições duras de serem enxergadas e, quando vistas, pesadas, difíceis, para a maioria, de serem encaradas – “capacidade e coragem para enxergar a verdade”; ser tomado, possuído por um arroubo fortíssimo de se deparar com uma grande constatação, fruto de privilegiada percepção. A segunda forma de arrebatamento aparece com ainda mais força e frequência na obra; é seu predicado maior: aquela capacidade da grande arte de te levar para outro lugar, de te tirar de si; a contemplação, a vivência que, como diria Schopenhauer, te coloca num transe capaz de desligar a Vontade por alguns instantes – aqui não quero concordar com o autor ao pé da letra, entre outros motivos, por não defender que uma teoria para explicar o mundo deva se basear em qualquer ente metafísico; analogia, sentido figurativo, algo assim… Ou que, como retrucaria Nietzsche, num sentido oposto, afirma a vontade, namora com o dionisíaco, origina uma explosão de sentimentos, sensações, de coisas misteriosas (ou não) que compõem o nosso âmago – acredito numa espécie de mescla dessas duas vertentes dotada de diversas adaptações, discordâncias e relativizações que devem ser aplicadas nestas duas partes que, somadas, formariam o todo; em suma: admiro, vejo verdades e, não de forma excludente, discordo muito dos dois autores não só nas acepções em que eles se opõem e omitem o entendimento do outro. Dois exemplos da materialização desta capacidade ímpar de arrebatar te tirando o chão, levando-te para outro lugar, entorpecendo, desligando e ao mesmo tempo (ou seguidamente, concomitantemente…) arrepiando? A cena do carnaval de rua – penso no melhor de Buñuel e do cinema Italiano – e o longo ato final, com uma atriz incrível – a epopeia dela nos brinda, entre outras coisas, com alegorias, simbolismos do nosso passado racista, escravocrata (presente também, por que não, repaginado, “amenizado”, apaziguado, em diversos pontos do “Rio Olímpico” e em termos análogos nas maneiras de muitos lidarem com a Paralimpíada).


Um dos temas de “A morte de J.P. Cuenca” é o Rio da pasteurização, da gentrificação, da especulação imobiliária, da perda de alma, identidade, da exclusão social, das desapropriações, da gourmetização, da padronização, da cópia da cópia, do simulacro, do kitsch. Insosso, sem sal. Insensatez. Pobreza arquitetônica adquirida e bancada pelos ricos de dinheiro e paupérrimos de espirito. E esse Rio, em diversos sentidos, é o Rio Olímpico. Essa realidade, de incontáveis maneiras, se entrelaça, foi acelerada, acabou exacerbada pelo Rio do COI, o Rio da FIFA. É o Rio que a turma da Vênus Platinada – e de seus concorrentes populistas – somente aplaudiu.


Dentro do ônibus que carregava a imprensa pelo Parque Olímpico; papo com o excelente José Trajano – com ele, desde sempre, aprendi a fazer jornalismo; pergunto o que ele estava pensando em geral do evento, em termos de organização; a primeira coisa sobre a qual ele divaga: “estou achando tudo muito sem alma; essas arenas…”. Eu devolvo: “e está assim há algum tempo, né?! Desde a Copa do Mundo. Tudo pasteurizado, tudo muito parecido, cinzento, matemático, sem vida”. Tijucano como poucos – talvez o bairro com mais “caráter”, certa aura, determinado pathos do Rio – ele concorda. Saímos do ônibus. A primeira coisa que fiz? Indicar para ele o filme de João Paulo Cuenca.

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