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Os melhores volantes e nosso principal problema

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 10 comentários


Um jogador verdadeiramente culto, de gosto musical refinado. O marcador que destruiu o Brasil. Os dois melhores volantes do mundo.


Os melhores volantes e nosso principal problema


A última semana foi repleta de jogos especiais no futebol europeu. Acompanhando Liverpool e Real Madrid; a goleada histórica, humilhante do Bayern de Munique sobre a Roma por 7 a 1; o maior clássico do planeta hoje, Barça e Real; e por fim, o duelo entre Manchester United e Chelsea, tive o impulso de escrever sobre o tema desta coluna. Veio à mente, de modo mais forte, uma ideia que sempre tive, e chegou a hora em que tornou-se inevitável desenvolvê-la. Assistindo às partidas, pude confirmá-la: Tony Kroos e Xabi Alonso são jogadores de uma estirpe única, donos de um estilo praticamente ausente entre os atletas brasileiros. E a carência de nomes com tais predicados, em termos de seleção, talvez, seja nosso principal problema, nossa mais grave deficiência. Ademais, tenho convicção de que a dupla citada, junto a Yaya Touré, compõe o trio dos melhores volantes do mundo. Por fim, que, na linha do observado anteriormente, nesta posição, comparada a forças como Espanha e Alemanha, nossa equipe nacional tem desvantagem considerável. Provavelmente, a maior entre todos os setores do campo.


Tony Kroos se adaptou ao Real Madrid de forma absurdamente rápida. Nos primeiros jogos pelos Merengues já parecia lá estar há 10 anos. É o famoso maestro, o condutor, o organizador, o pensador. Não erra passes. Dita o ritmo. Arma de trás. Sabe como ninguém variar entre toques simples e lançamentos longos. Quando opta pelos últimos, tem precisão quase irritante. No 4-4-2 bem tradicional do esquadrão de Ancelotti, de certa maneira, à moda inglesa, na segunda linha, Kroos e Modric atuam pelo centro, na sustentação do meio, protegendo a defesa. E, nesse setor, não poderiam ser exemplos melhores de uma tendência – louvável – européia: a de transformar meias clássicos e habilidosos em volantes, valendo-se da máxima de que é mais fácil ensinar o craque a marcar do que o cabeça de bagre a construir. No Brasil, ainda arcaico taticamente, com frequência notamos o caminho inverso: “professores” desperdiçando seus volantes mais técnicos ao experimentá-los como armadores. Conforme já disse em outra oportunidade, acabam perdendo um ótimo homem de contenção e não ganhando um bom arquiteto.


Xabi Alonso possui predicados parecidos. O refinamento que apresenta em campo aparece em sintonia com seu bom nível cultural – é uma espécie de “jogador indie” do futebol europeu, ao lado de Leighton Baines, do Everton, por já ter demonstrado gosto e conhecimento por bandas como as maravilhosas Teenage Fanclub e Swans, filmes cool – Drive, por exemplo – e seriados tão inteligentes quanto apreciados pelos mais antenados, até meio hipsters – Mad Men, elogiado por Xabi, é excelente. Este realmente se aproxima mais do que se poderia chamar de um entusiasta da boa música, de um futebolista culto, por apreciar artistas verdadeiramente criativos, superiores, que transcendem, produzem trabalhos charmosos, inovadores, que saem do comum. Aqui não se vê aquela história de jogador que diz amar e conhece mais ou menos, sei lá, um AC/DC da vida, que ouviu uma vez o “greatest hits” do Pink Floyd e, consequentemente, é colocado pela mídia brasileira como “amante do rock and roll”. Aquele “de verdade”, “original”. Quase um intelectual. As reportagens clichês…


O que mais chama atenção nesses dois atletas é um atributo raro de se ver comentado hoje em dia, quando se fala de futebol: a inteligência nos gramados. Manifestada, por exemplo, na visão de jogo, na capacidade de escolher a jogada certa, e de dominar um setor do campo.


No Campeonato Brasileiro aquele que mais se aproxima disso é Lucas Silva. Embora ainda longe do patamar de excelência adquirido pelos destacados. E na seleção, nosso titular, lembremos, é Luiz Gustavo… Sem mais.

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