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Censura no futebol brasileiro

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 44 comentários


“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”, defende-se na famosa citação erroneamente atribuída a Voltaire (criação, na verdade, de uma biógrafa do autor francês).


Censura no futebol brasileiro


Na terça-feira, estive in loco, no Independência, comentando o jogo do América. Mais importante do que qualquer detalhe tático e técnico de uma das partidas mais fracas e chatas que acompanhei nos últimos tempos, foi algo que aconteceu nas cadeiras do estádio.


Ao longo do segundo tempo, um torcedor do Coelho levantou um cartaz. Começou a “girá-lo”, com o intuito de mostrá-lo para um número maior de pessoas. Rapidamente, iniciou-se um fuzuê no local. Outros membros do público se aproximaram, passaram a olhar na direção daquele cartaz, e principalmente, membros da segurança do estádio surgiram, indo em direção ao local. Alguns instantes depois, policiais apareceram. Fazendo o mesmo trajeto. Na cabine, do lado oposto, não conseguia enxergar a mensagem do cartaz. Não dava para ter certeza de nada. Mas a impressão, o “cheiro” era de ditadura, de que as “autoridades” estavam “incomodadas” com o cartaz do torcedor. Uma pontinha dentro de mim ainda não queria acreditar naquilo, mas a sensação, a intuição, eram fortes demais. Mais tarde, enfim, esclarecida a história, infelizmente, acertei: as ditas “autoridades” queriam mesmo impedir o torcedor de mostrar o seu cartaz. Pior: o retiraram do Independência. Um absurdo.


O que o cartaz dizia? Nada demais. “SOS advogado do Fluminense”, algo nessa linha, numa referência ao episódio jurídico que envolveu o clube carioca e a Portuguesa, no ano passado – onde o primeiro acabou beneficiado – e à derrota do próprio América, no dia anterior, no tribunal – que decidiu tirar 21 pontos do Coelho pela escalação irregular do jogador Eduardo.


Na quarta-feira da semana passada, dia 10 de Setembro, no jogo diante da Chapecoense, a torcida do Coritiba exibiu uma faixa que estampava o árbitro Wagner Reway com a camisa do Flamengo. O manifesto, a ironia, faziam alusão ao jogo entre o Coxa e o rubro-negro carioca pela Copa do Brasil, quando a equipe paranaense foi claramente prejudicada. O juiz do duelo contra a Chapecoense, Devarly Lira do Rosário, só iniciou a partida quando a faixa foi retirada. A torcida Coxa-Branca respondeu aos gritos de “vergonha”. E com razão. De fato, era uma vergonha.


Há muitos outros fatos desta estirpe, recentes, manchando o futebol nacional. E pouco repercutidos na mídia em conjunto, como sinais claros de uma censura deplorável. Mais importante do que os jogos, do que “as duas linhas de quatro”, e qualquer questão tática, são os fenômenos políticos, sociais, que se atrelam ao futebol. Concordar ou não com o conteúdo das manifestações é secundário. As pessoas simplesmente devem ter o direito de fazê-las, de se expressar – desde que não haja preconceito, racismo, qualquer tipo de crime. Bom senso: nenhuma das manifestações citadas, como muitas outras coibidas em episódios recentes, resvala num exagero que seria passível de repressões que vêm ocorrendo.


No futebol brasileiro, parece, crime é criticar a CBF. Ou outras entidades poderosas desse esporte.

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