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Torcedores doentes

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 21 comentários


Nos debates sobre o fato, o que choca é a incapacidade genuína de sentir, se indignar, fugindo do discurso óbvio e do politicamente correto.


Torcedores doentes


Quando um episódio como o das manifestações racistas de alguns gremistas na quinta, acontece, e, por uma conjuntura de fatores, vira o assunto da semana, da “mesa do brasileiro”, escritores e estudiosos da alma humana têm um prato cheio. O tópico é polêmico, palpitante, desperta emoções. “Pega na ferida”, envolve ética, julgamentos e capacidade de avaliar. Valores. O lado humanístico dos personagens principais e dos debatedores de plantão, de certa maneira, “fica na reta”. É algo complexo. Muito melindre e medo de ser execrado dão as caras. O politicamente correto, então…


Ao participar de algumas dessas contendas, entre amigos, companheiros de profissão e parceiros de ocasião, na maior parte das vezes, sinto um misto de raiva – entre outros intricados sentimentos parceiros do incômodo, difíceis de traduzir – e satisfação – ou melhor: noção de que, mesmo o erro, a baixeza intelecto-espiritual, se, em si, não agrada, como realidade, há de ser, em determinado grau, aceita, e servir de material para quem, de algum modo, produz, trabalha, tentando conhecer cada vez mais o âmago humano.


Um dos motivos pelos quais a mencionada raiva apareceu quando ouvi opiniões diversas: é impressionante o número de pessoas, estudadas, com total acesso à informação que, na hora de suas análises, dá mais peso, coloca o enfoque na ideia de que “exageraram” com a torcedora que cometeu o crime de racismo na quinta – muitos sem nem saber dos reais excessos que existiram, considerando como tais simples reprimendas duras. Na maior parte das vezes, a questão não é nem o foco. Simplesmente ignoram a real atrocidade, o centro da história: o crime e a ignorância existentes no racismo. Estes ficam para escanteio, negligenciados. Total ou parcialmente. Enquanto os “exageros” com a coitadinha assumem o protagonismo retórico. Nessa linha, assusta como muitos não apreendem, não julgam, não percebem, não sentem a situação em sua real gravidade, despidos do tato para notar que o ato da garota em questão, além de crime tipificado, não é “só errado”; ela não foi “apenas infeliz”. Na verdade, ela mostrou, pra valer, uma burrice e um defeito de caráter MUITÍSSIMO graves, daqueles que, de algum modo, não devem ser assim avaliados apenas “racionalmente”; hão, sim, de despertar, naturalmente – em quem tem o mínimo de percepção, intelecto, e senso de justiça, humanismo -, raiva, incômodo, indignação, vontade de reagir, de fazer algo…


Em suma, me traz certa ojeriza não apenas o preconceito: em grau menor, claro, o que eu chamaria de indignação “pequena”, “protocolar”, passiva, “cômoda”, também me corrói.


A torcedora do Grêmio não há de ser linchada. Não diria que qualquer violência e xingamento a ela são válidos. Não é isso. Afirmo apenas que a reação de muitos é “medida demais”, “corretinha demais”, “educadinha” em excesso – tudo sob a couraça de uma suposta “ponderação” -, e nada disso combina com algo tão baixo, cruel e ignorante como o racismo. Dentro de certo limite, o que a menina fez, não torna injusto que ela – e sua ignorância – sejam expostas. Pelo contrário. A autora de um ato tão idiota, por ele, faz jus, sim, a ouvir poucas e boas.

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