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Torcedor infantilizado

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 84 comentários


No Brasil, muitas vezes, para discutir futebol é preciso deixar o cérebro em stand by…


Torcedor infantilizado


No documentário “Lord Don’t Slow Me Down” (2007), Noel Gallagher, cérebro do Oasis e torcedor fanático do Manchester City, ao passar em frente ao estádio do seu time do coração, em determinado momento, diz algo como, suspirando: “o templo do mau futebol…”. O episódio ocorreu em 2005, quando o Oasis fez três shows lotados no novo palco dos Citizens – este colunista teve o prazer de estar em um deles. O City of Manchester Stadium havia sido inaugurado em 2002 para o atletismo e 2003 para o futebol. Antes, a equipe azul de Manchester jogava no Maine Road, onde o Oasis realizou shows históricos em 1996. Vale lembrar: em 2005, quando Noel proferiu a frase carregada da mais típica ironia inglesa, o City ainda não tinha sido comprado pelo bilionário grupo árabe que ainda o controla (o que aconteceu apenas em 2008; curiosamente, umas das primeiras contratações de considerável impacto, caras, desta nova fase do clube, foi Robinho, que vinha do Real Madrid). Logo, as palavras do guitarrista/torcedor símbolo ainda faziam sentido: o time era, de fato, ruim. E pior: tinha como vizinho e rival um dos maiores do mundo, o Manchester United, que da década de 90 até aquele momento dominara completamente o futebol inglês.


Durante as várias vezes em que estive na Inglaterra, e mesmo observando a cultura daquele país de longe, pude comprovar, por meio dos mais variados exemplos, que esse tipo de relação que Noel, enquanto torcedor completamente fanático, tem com o seu time, é bastante comum por lá. Com pequenas variações, em geral, em termos análogos, o mesmo vale para boa parte da Europa – e até para os Estados Unidos, onde, claro, o chamado fanatismo costuma ser diferente e as agremiações (franquias) adoradas são de outros esportes.


O que quero dizer com isso? Que nesses lugares, por mais apaixonados, fanáticos que sejam, os torcedores – quer dizer, pelo menos grande fatia deles – não costumam deixar o cérebro em stand by quando vão falar do seu clube; eles não precisam brigar com fatos, entrar num estado de negação quase inacreditável para não reconhecer verdades que soam ruins para suas instituições tão queridas. Eles amam o clube, e pronto. Para “embasar” esse sentimento, não necessitam de, como crianças em estado pré-racional, fazer rodeios retóricos, pirracentos, para tentar “ganhar” no grito discussões que às vezes passam por fatos tão simples quanto inquestionáveis – por exemplo, clara disparidade quanto a um rival em número de títulos e/ou tamanho de torcida; em muitos casos, basta contar, não há muito debate. E há algum problema em torcer pela agremiação que tem desvantagem nesses quesitos? Não, nenhum.


No Brasil, invariavelmente, ser adepto realmente fervoroso envolve, em grande medida, colossal descompromisso com a razão. Por essas e outras, muito comum é o cenário em que determinada pessoa dotada, digamos, de uma honestidade intelectual mais aguçada, de um espirito minimamente racional, por mais que adore o futebol e um clube, tenha preguiça de debater sobre este esporte em escolas, faculdades, escritórios, bares… A infantilização, a cegueira, a bobagem incomodam.


O curioso – e talvez mais prejudicial – nesta história toda é que, a imprensa, com medo de desagradar parte do público, dotada do seu comum e nefasto ranço populista, à sua maneira e em graus distintos, frequentemente também deixa a razão de lado, não tem coragem para dizer certas verdades. “Tem coisa que não dá para falar…”. Nisso, diversas vezes, o debate midiático também fica bobo. E faz rodeios demais onde não deveria…

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Inversão de valores no Cruzeiro

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 292 comentários


Não se deve querer impor cegamente, acima de qualquer bom senso, determinadas filosofias de futebol…


Inversão de valores no Cruzeiro


Paulo Bento gosta da marcação pressão, avançada, no campo do adversário. Eu também. Mas se apegar a isso – ou a qualquer preferência estratégica – de modo a preterir a técnica, a qualidade dos jogadores em patamares acima de qualquer bom senso, claro, é um erro. Equívoco este que, para sorte de Bruno Ramires, e azar dos cruzeirenses, tem acontecido muito. Sabe aquela história de que o bom treinador deve, acima de tudo, se adaptar ao elenco que possui, escolher sistema, estilo e filosofia condizentes com o plantel? Pois é… Não digo que Bento seja um mau técnico; mas em muitos instantes, o que ele tem feito é querer impor suas ideias independentemente de elas combinarem com as melhores peças a serem selecionadas – ou até sem tentar para valer a execução destes pensamentos com futebolistas que, teoricamente, a priori, aparentemente, não possuem determinadas características num grau suficiente, mas que, quem sabe, poderiam se adaptar, surpreender…


O Cruzeiro, com o português, variou, basicamente, entre três sistemas: o 4-1-4-1/4-3-3, o 4-4-2 com losango no meio – utilizado com a escalação inicial diante do Fluminense – e o 4-2-3-1. Nos dois primeiros citados, tem-se um trio de meio-campistas, de volantes; um mais preso, dois com liberdade maior para avançar. Quando escolhe um destes esquemas, Bento normalmente vem pedindo para essa dupla de volantes mais adiantados sair para o combate, subir a marcação, apertar a saída de bola do adversário. Para um jogador sair do meio, e chegar ao ataque para incomodar os defensores/volantes inimigos, em geral, ele precisa de velocidade; para recompor caso esse combate inicial não seja o suficiente para roubar (ou ao menos quebrar) a bola do oponente, então, nem se fala. Muito da escolha por Bruno Ramires – e do desprestígio de Ariel Cabral – passa por isso. Tanto é que, quando o argentino começou jogando com Bento – diante do Vitória pela Copa do Brasil, e do Atlético-PR –, atuou como primeiro volante – algo inédito desde que chegou ao Cruzeiro.


Por esse mesmo motivo, Bento começou com Bruno Ramires – um pouco mais pela direita – e Allano – um pouco mais pela esquerda – na derrota para o Flu; pelo fato de os dois serem mais rápidos. E sim: neste jogo, Allano foi volante – e não meia-atacante pelas beiradas, como alguns de nossos “especialistas” andaram dizendo por aí. Pensando nesse cenário me toco que provavelmente estas tenham sido as verdadeiras razões por trás de uma espécie de inversão – um tanto inusitada – que o comandante celeste fez na partida contra o Botafogo: naquela oportunidade, com Arrascaeta e Robinho juntos, ele escalou o primeiro como “volante pela esquerda” e o segundo como “ponta do losango”, armador principal – quando o natural, o óbvio, seria o contrário.


Tentar entender o que o treinador pensa, estudá-lo, não é com ele concordar. Nossa mídia precisa ser menos simplória, explorar mais profundamente os aspectos técnicos e táticos do jogo, se informar melhor; compreender motivos é importante sim para criticar decisões. Dito isso: nem por um segundo endosso a “obsessão” que Bento tem mostrado por Bruno Ramires – tampouco a escalação de Allano no jogo passado (muito menos como volante que ajuda na construção) e a citada inversão entre Robinho e Arrascaeta. O treinador precisa compreender que – e aqui falo da escolha mais constante e que, portanto, mais interfere na vida do time –, se Bruno Ramires é, de fato, mais rápido que Cabral, é muito inferior, hoje, no todo; que, entre prós e contras, a conta da escalação dele (sob o argumento de que assim subiria a marcação) não fecha, de jeito nenhum; e que, no fundo, além da deficiência técnica geral que tem mostrado, na realidade, convenhamos, nem na marcação pressão Bruno Ramires vem sendo minimamente útil. Bom senso, Portuga, bom senso… Nada de querer “impor” cegamente, a qualquer preço, suas “filosofias de futebol”…

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Se enganando pelos resultados…

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 247 comentários


Ele já era gigante. E não deve, pela Euro, virar mais do que é…


Se enganando pelos resultados…


Frases que versam sobre a imprevisibilidade do futebol, que decantam sua falta de lógica sem paralelos no mundo dos esportes já estão impregnadas no imaginário coletivo. Muitas tornaram-se clichês usualmente recebidos com expressões de enfado e reprovação; por serem óbvias demais, desgastadas em excesso. O curioso é que, embora a ideia de que o futebol seja totalmente peculiar no sentido aqui discutido – “uma caixinha de surpresas”, o “único esporte em que não é tão improvável o pior ganhar do melhor” – mostre-se bem aceita, uma espécie de senso comum, essas mesmas pessoas, quando deparam-se com situações nas quais essa excentricidade se materializa, parecem não saber lidar, interpretar justamente esse caráter atípico do jogo. Nessa esteira, ao invés de apreenderem que muitos resultados estão totalmente descolados da meritocracia, da supremacia, do talento; que o acaso, certa comunhão de circunstâncias são artilheiros tão matreiros quanto assíduos, decisivos, no mundo da bola; que muitas vezes as coisas simplesmente acontecem, imprensa e sociedade, via de regra, não se cansam de sempre querer achar padrões, tendências, explicações em todo e qualquer placar. Em competições graúdas, com determinada aura de “definitivas”, e que abarcam mais gente nos debates públicos, indivíduos menos envolvidos com o futebol do dia a dia – Copa do Mundo e até a Euro, de certa maneira –, são pródigas nisso.


Alemanha perde para a França. “Ah, os campeões mundiais já não são isso tudo; nem sei se eram, na verdade.” Bem… Não sei exatamente o que seria “isso tudo”, mas… Sério?! Dizer algo assim por causa desse jogo? Essas pessoas viram o duelo? Coletivamente, os alemães foram claramente melhores, mais consistentes. E a disparidade não foi pouca. Mas o futebol permite que uma equipe dominante, além de falhar no momento do arremate – ou de simplesmente ter azar em algumas situações –, pague pela infelicidade momentânea de um dos seus integrantes que, do nada, num lance sem qualquer perigo, encosta a mão na bola dentro da área – e eu, honestamente, nem apontaria a marca da cal na intervenção de Schweinsteiger, embora considere a decisão do árbitro no mínimo plausível. Há outras relativizações a serem feitas em torno deste confronto na acepção aqui discutida. Mas o ponto deste texto não é esmiuçá-lo.


Num movimento não exatamente igual, mas consideravelmente análogo, é curioso observar várias reações acerca da figura de Cristiano Ronaldo depois do título de Portugal no domingo. Num torneio em que sua equipe não chegou a convencer coletivamente, e no qual o craque esteve longe de brilhar, apresentar regularidade, pelo rótulo do título, e por episódios superestimados em que ele mostrou liderança – e por eles deve ser elogiado, vejam bem –, de repente, “aí sim” o sujeito “provou” para muita gente que é “o” cara; “melhor do que Messi” (não é); um gigante (sem dúvida!). Nem parece que essas figuras entram em campo, sei lá, 60, 70 vezes por ano; há várias temporadas; que há muito a ser contextualizado, colocado no pacote das análises. Para alguns – que pouco acompanham jogos de verdade e com atenção – o parâmetro para o “julgamento final” é uma intimada no companheiro para que ele bata um pênalti, e um erro do rival argentino numa cobrança específica.


E essa coluna não é o contra o excepcional Cristiano Ronaldo. Que em outros momentos, justamente por esses mesmos levianos, era injustamente rotulado, criticado com tons taxativos, por meio de lugares-comuns que se ouve por aí (“só olha para o telão”, “metrossexual”…). Diz muito sobre a pouca capacidade humana de avaliar: o português há anos mostra consistência inacreditável; é inquestionavelmente excelente nas mais diversas searas da sua profissão; tem números monstruosos; e é especificamente por uma competição de um mês, em que ele nem esteve particularmente tão bem, e bastante por méritos superestimados – gritos e reações à beira do campo e com companheiros que, repito, são elogiáveis, sim – que ele, de repente, para muitos, “vira bom pra valer”, “o melhor”, o novo integrante de determinado panteão. “Ah, agora ele me convenceu…”. Sério?! Por “empurrar os companheiros”? Não foi depois de ano sim, outro também, jogando MUITO bem? Vai entender…

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O anti-intelectualismo brasileiro reina também no futebol

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 305 comentários


A ridicularização do conhecimento, as inversões do anti-intelectualismo também dão as caras no futebol.


O anti-intelectualismo brasileiro reina também no futebol


Tornaram-se ainda mais comuns, nos últimos meses, certas críticas, diretas ou indiretas, determinadas ironias, de alguns jornalistas, a respeito do que convencionou-se chamar-se de “tatiquês”. Não é possível traçar um panorama geral de todas essas declarações. Algumas delas não passam de brincadeiras inofensivas; outras são críticas saudáveis; e existem também aquelas falas desqualificadas, oriundas de um melindre calcado no desconhecimento – invariavelmente o ignorante se incomoda com a competência alheia e tenta, de algum modo, inverter valores; ridicularizar aquele que sabe; ainda mais típico num país particularmente anti-intelectual como o nosso.


Saindo das teses dos jornalistas; entrando agora na reação do público acerca delas: chega a ser abissal o número de pessoas aplaudindo algumas figuras que, nem tão imperceptivelmente assim, estão chamando-as de burras. Reitero: não são todos os “críticos do tatiquês” que entram nesse rol. Longe disso. Mas alguns deles, junto à galhofa, à diminuição voltada ao profissional que simplesmente entende o jogo de futebol estrategicamente – o que, óbvio, deveria ser enxergado como qualidade –, deixam escapar, como um dos motivos que supostamente abalizariam essa crítica ao tatiquês – que não é exatamente o alvo deles, é bom que se diga, e sim o simples falar de tática –, o fato de o futebol ser um esporte popular e de o público geral não ser capaz de entender as análises sobre estratégias. Sem hipocrisia: claro que muita gente não compreende, em certo sentido. Mas é grande também o número de interessados e de torcedores que entendem, sim. E tudo depende também da forma de exposição, de certa clareza, alguma didática – diferente de didatismo. Além disso, outras questões: até quando a limitação servirá de muleta para a perpetuação dela mesma? O especialista, aos poucos, com jeitinho, não teria também o papel de fazer algo para melhorar o quadro? Enfim… Reflexões as quais volto em outro momento. No frigir dos ovos, queria apenas apontar a ironia dos casos em que a pessoa aplaude aquela que está a chamando de burra – e, óbvio, avalizando a tese pelo menos no que tange a ela mesma… Porque, sim, em algumas situações, é isso que acontece na relação texto/comentários em torno do tema aqui descrito; o leitor não saca, não se apega à parte em que, de algum modo, pessoas como ele foram desprezadas; vê apenas a diminuição do tatiquês e, felizão, aplaude o sujeito que, no fundo, também o ofendeu – essas falas dos jornalistas a que me refiro nada têm a ver com críticas verdadeiras, filosóficas/sociológicas, sobre a ignorância humana, o baixo nível intelectual da maioria (são muito diferentes disso; abordo casos bem específicos); caso fossem, as apoiaria; paradoxalmente, os arautos aqui em tela em geral não teriam aptidão para enxergar, nem coragem para proferir esse tipo de proposição publicamente; afinal, populistas, costumam ser do tipo que, no ar, para “agradar as massas”, chegam com platitudes frequentemente distintas do que eles realmente pensam.


E o que seria o tatiquês? É óbvio que entender o futebol somente como fruto da tática, mostra-se um erro cabal. É claro que o esporte bretão vai muito além do 4-1-4-1. É evidente que não se deve superestimar o papel que os sistemas e as estratégias possuem. Sempre, com muita ênfase, gosto de destacar essas coisas. Físico, psicológico, talento individual (para mim, ainda, o principal fator), raça, pequenezas do cotidiano, paixão, arte, drama… São incontáveis os elementos que têm no mínimo uma ínfima participação no sucesso, no fracasso, e na fruição. Inclusive o acaso – diga-se de passagem, usualmente desprezado pela imprensa boleira que, em grande parte, mais do que deveria, acha que possui sempre “explicações”; não, nem sempre; às vezes a bola simplesmente bate na trave… Entre todos esses tentáculos, contudo, a tática também possui, em geral, seu grau de interferência. E, ademais, é uma informação, algo tratado como sério dentro dos clubes – e como tal, merece ser transmitida para o público.


Feito todo o exposto: não vejo grande proporção de excesso e superestimação da tática entre os jornalistas que falam das estratégias. Simplesmente estão abordando um assunto. Têm seu estilo. O fazem dentro da medida (na maioria dos casos). Logo, o vocábulo “tatiquês”, que carrega implícito algo relacionado a supostos excessos de complicação, ou de exacerbação do uso, não me parece adequado em muitas das críticas feitas em que ele é utilizado para designar o alvo. Afinal, na maioria desses casos, não se critica o “tatiquês”. E sim, simplesmente quem fala de tática. Comumente, por implicância; muitas vezes, por se incomodar com o conhecimento alheio (e nisso, o sujeito tenta achar motivos para embasar, para justificar uma crítica improcedente; como diria Schopenhauer: não queremos porque temos motivos; encontramos motivos porque queremos). Isso, em si, é surreal – não seria quase obrigação (ou ao menos um viés natural para parte da imprensa) do sujeito que trabalha com futebol compreender as estratégias dos times?

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Paulo Bento e repertório tático

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 332 comentários


É cedo para superlativos, idolatrias e opiniões definitivas. Mas os presságios até aqui…


Paulo Bento e repertório tático


Logo nas primeiras partidas comandando o Cruzeiro, Paulo Bento deixou boa impressão. Mostrou clara capacidade de organizar o time, fazer o conjunto posicionar-se corretamente, atuar de maneira consciente; suas peças sabiam o que realizar em campo. Ademais, a despeito dos empates diante de Figueirense e América, e da derrota para o Santa Cruz – resultados bem enganosos –, os celestes apresentaram, nessas oportunidades, ótima compactação, controle do jogo, do meio campo, e poder criativo que não existia na era Deivid – se o ataque não tivesse desperdiçado tantas chances nesses duelos, com certeza os placares seriam totalmente diversos.


Neste começo, o estilo que o português privilegiava era o de propor o jogo. Ter mais posse. Controlar. Cadenciar. Envolver com passes curtos, povoando o meio-campo. E, para quem analisa o esporte além dos resultados, ele escancarava talento para executar essa filosofia – contemplando, sobretudo, a parte dela que faltava à Deivid: eficiência no terço final e aptidão para fazer ligação entre meio e ataque. Ao longo do tempo, em circunstâncias diferentes – inclusive levando-se em conta alguns desfalques, como o de Robinho –, o técnico mudou totalmente sua ideia de jogo, sua proposta. Contra o Atlético, por exemplo, escolheu atuar em transição, num estilo no qual sua equipe se postava inteligentemente com duas linhas se defendendo, e partia com velocidade, com sincronia para aproveitar os contragolpes, os erros do oponente, os espaços deixados por uma defesa ainda não recomposta. Nesta oportunidade, propor, controlar, não era a prioridade; e com essa estratégia, executada com maestria, o Cruzeiro foi melhor do que o rival; mereceu vencer.


Diante do Palmeiras, na melhor partida do clube cinco estrelas no Brasileirão, uma espécie de “terceiro mundo”. Paulo Bento não colocou o time exatamente esperando o adversário; longe disso. Não quis priorizar claramente a transição. Tampouco instruiu seus comandados para jogar com a posse, o controle – num sentido mais típico, “purista”. No último sábado, o Cruzeiro teve mais iniciativa, tomou as rédeas. Só que, ao invés de optar pela cadência, escolheu a intensidade, a verticalidade. “Engoliu” o líder do certame. Pecou somente por ter perdido muitos gols – e na falha individual de Bruno Rodrigo que concedeu tento ao alviverde. Pela disparidade que teve em termos de volume, ocasiões claras de marcar, domínio, imposição, poderia ter goleado.


O que quis apontar até aqui: Paulo Bento já mostrou, em pouco tempo, repertório. Não é samba de uma nota só – ou fado de um único acorde… Sabe variar, sabe entender a peculiaridade de cada confronto. Tem conteúdo, bagagem intelectual para saber o que se adéqua, como se atua em cada uma das filosofias possíveis no futebol; mais do que isso, sabe aplicar, na prática, cada uma dessas teorias. E se o “Portuga bom de prancheta” parece capaz de variar em termos teóricos, de proposta de jogo, também dá bons sinais no que tange ao dom para eleger corretamente o melhor sistema. Já escolheu o 4-4-2 com losango no meio, o 4-2-3-1 e o 4-1-4-1. Mais importante: soube casar certeiramente os esquemas com as características dos jogadores que tinha como titulares em cada dia e com a filosofia, a proposta preferida para cada partida em particular – algo que, conforme escrevi aqui em outras oportunidades, faltou à Deivid, que queria jogar com controle, propondo o jogo, numa espécie de tiki-taka muitas vezes por meio de sistemas e jogadores que combinavam mais com uma filosofia de velocidade, intensidade (tendo a transição como prioridade ou não).


Como se não bastassem esses atributos estratégicos, Bento parece ser bom de vestiário, na parte motivacional, no lado humano do jogo. Afinal, saltou aos olhos a raça impressionante, o foco, a entrega descomunais que o Cruzeiro mostrou contra Ponte e Palmeiras. Quem queria emplacar a tese de que havia crise entre professor e elenco… Faltou combinar com a realidade…

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