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Futebol enquanto algo mais importante

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 88 comentários


Boa parte dos comentários do post anterior respondidos, seja no próprio blog, seja por e-mail.



Seria interessante se intelectuais e imprensa utilizassem exemplos ligados ao futebol para compreender questões do âmago humano e da sociedade.



Futebol enquanto algo mais importante


Um dos mais prestigiados intelectuais vivos do planeta, Umberto Eco, lançou recentemente o livro “Número Zero” (Record, 2015). Um dos temas centrais do romance é a podridão do jornalismo.


Nas últimas semanas, durante trabalho normal de divulgação da obra – entrevistas, aparições diversas –, o autor de “O Nome da Rosa” tem reservado palavras duras à Internet. Há cerca de um mês, ao receber título na Universidade de Turim, defendeu que “a mídia social dá voz a uma legião de imbecis, que antes falava apenas no bar depois de beber uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.


Esse tipo de crítica vem dando dor de cabeça à Eco. Injustamente. Conforme ele mesmo reconheceu em entrevista à Globo News, essas declarações chegam a ser óbvias. Em nenhum momento o autor deixa de destacar os inúmeros lados positivos da Internet; em nenhum instante, diz que só há gente burra e ruim navegando na rede de computadores; sequer coloca os “idiotas” como maioria – algo que um Schopenhauer, um Nietzsche fariam hoje, se estivessem vivos, sem o menor pudor.


Elegante e ponderado, educado, Eco simplesmente foi mal interpretado por muitos. Segundo o professore, estes que chiam são justamente os “imbecis” aos quais se refere quando fala das redes sociais.



O tema “baixo nível do debate virtual” frequentemente aparece em eventos culturais aqui no Brasil. Em alguns deles, quando participei, fiz questão de lembrar de um dos nichos que mais reúnem gente na Internet: o “submundo” dos torcedores fanáticos de futebol – afinal, nessas ocasiões, as pessoas se limitavam a abordar às manifestações do público ligadas às editorias de cultura e política; há comumente uma espécie de preconceito, certa negligência, às vezes mero esquecimento quanto a determinadas utilizações de exemplos conectados, de alguma maneira, ao esporte bretão (não necessariamente por “má-fé”; muitas vezes simplesmente não faz parte do universo dos debatedores).



Pelo volume de mensagens trocadas sobre o futebol, pelo fato de o público integrante deste debate público ser consideravelmente plural em diversas acepções – classe social, nível de escolaridade… –, por palavras e discussões sobre o tópico serem, por diferentes caminhos, sintomas do “homem médio”, extremamente entrelaçadas a ele, penso ser interessante demais incluir diagnósticos em tornos das altercações públicas virtuais sobre o beautiful game nessas tentativas de entender fenômenos mais amplos da nossa atualidade, da nossa espécie. Afinal, se há uma coisa que faz parte da cultura brasileira, mundial; que mostra-se extremamente popular, parte vital do cotidiano das pessoas, é o futebol. E como tal, de jeitos distintos, muito mais do que se pensa, na maneira de o povo conversar, lidar, viver a modalidade, tem-se um material tão diverso quanto útil para a compreensão do ser humano, da sociedade.



Tendo em vista que, em determinado aspecto, futebol é apenas entretenimento, penso que caberia à mídia esportiva tentar aproveitar suas intermináveis mesas-redondas, pelo menos num grau ligeiramente superior ao atual, para refletir a respeito desse lado do esporte bretão. Claro que, um dos empecilhos para esse objetivo, é a própria limitação intelectual de parte dos jornalistas; que nem adiantaria discutir sobre algo assim sem a menor capacidade para tal. Porém, apesar desta ressalva – e de outras que poderia fazer, levando-se em conta até a luta pela audiência e o lado mercadológico da coisa –, creio que daria, sim, para a imprensa boleira dar pelo menos um pouco mais de espaço para esse tipo de papo, para contextualizar o assunto que acompanha, estuda – muitos nem tanto –, com outros fenômenos sociais. Sem dúvida, isso faria com que certo preconceito ante o jornalismo esportivo – em meios intelectuais e na sociedade me geral – dirimisse – não que ele seja sempre correto.

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Zona da Confusão

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 89 comentários



O termo que Luxa inventou para se referir à zona perigosa do campeonato, hoje, bem que poderia ser aplicado ao seu trabalho no Cruzeiro.



Zona da Confusão


A expressão que dá título à coluna foi preconizada pelo “Profexô” no ano passado. Pegou. Hoje designa aquela área da tabela que envolve o Z-4 e adjacências. Mas poderia, muito bem, valer para se referir ao trabalho de seu criador no Cruzeiro, mais especificamente, ao que virou a utilização do elenco celeste sob o comando do atual treinador. A equipe se transformou numa verdadeira miscelânea; os critérios, as maneiras de escolher os titulares no plantel, extremamente confusas.


No início, manter a formatação de jogo proposta por Marcelo. Depois, mudar para um 4-4-2. Mas isso é o de menos. O que mais bagunça e tem atrapalhado o time é a total inconstância da escalação, na seleção dos 11 principais. Nisso, o treinador vem se mostrando tão infeliz quanto parece maluco o cenário nesse aspecto.


Doze jogos. Doze formações diferentes. Sim: cartões, contusões… Mas não se enganem: por opção do chefe, o número das assíduas intervenções foi até aqui bem maior do que poderia considerar-se como razoável. Bem maior mesmo. Não há sequência.


Allano, do nada, surgiu. Logo na estreia de Luxemburgo. Num passe de mágica, sumiu. Marcos Vinícius teve oportunidades. Até apresentou instantes interessantes. Porém, será que fez o suficiente para virar titular quando se tem Gabriel Xavier, Arrascaeta, Marinho, entre outros? Marquinhos foi escanteado de maneira extremamente exagerada, não só no período em que estava em vias de ser negociado. Por mais que este jogador divida opiniões dentro da torcida do Cruzeiro, que não seja um craque, na conjuntura atual, de duas, uma: ou seria titular ou, no mínimo, uma arma interessantíssima para mudar as partidas.



Willian, depois de incontáveis provas da incrível má fase, inacreditavelmente, diante do São Paulo, foi titular. Arrascaeta jogou de meia pelo centro no 4-3-3 (Luxa me disse pessoalmente que não gosta da nomenclatura 4-2-3-1, então não vou assim nomear o esquema sendo que o próprio pai prefere outra alcunha, embora, na prática, seu time parecesse sim nesse sistema sempre adotado por Marcelo); atuou como uma espécie de ponta esquerda na mesma formação; virou armador num 4-4-2 ao lado de Marcos Vinícius; e, por fim, saiu do time com o surreal discurso de que precisa “virar atleta”. Lembremos, para dar vaga ao criticado Willian.



O volante Willians, sem explicações, sem entrar exatamente numa maré negativa, foi preterido por Charles que, até outro dia, tinha sua simples reintegração questionada. Convenhamos, o raçudo volante não jogou o suficiente para dar salto tão grande – daquela zona de total desprestigio à titularidade.



Paulo André, mesmo dando sinais reiterados de que merece menos começar jogando do que Leo, não sai da equipe. Ceará entrou na vaga de Mayke. Algo que não faria. Coloquemos, contudo, esta última troca como plausível, aceitável – embora, independentemente da questão técnica, se considerada em conjunto com uma infinidade de transformações, também contribua, de alguma maneira, para a perda do sentido coletivo.



Além de todo este panorama que mistura aparente falta de convicção, mudanças excessivas, e trocas claramente infelizes do ponto de vista técnico, há um fato emblemático que resume o trabalho ruim até aqui. Diante do São Paulo a Raposa tinha no banco Mayke, Willians, Alisson, Gabriel Xavier, Arrascaeta, Marquinhos e Leo. Em campo, Paulo André, Ceará, Charles, Willian e Marcos Vinícius. Tirando Alisson, que voltava de contusão – por isso fazia sentido sua presença entre os substitutos –, me parece inconcebível escolher Willian, hoje, tendo Gabriel Xavier – poderia abrir pela beirada Marcos Vinícius, que, para mim, nem seria titular – e Arrascaeta disponíveis; Paulo André, com Leo apto; Charles, com Willians em forma.



Em suma: no Morumbi, o Cruzeiro tinha, por opção, um banco melhor do que a equipe titular.

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Salvando alguns comentaristas

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 63 comentários


*Texto publicado no jornal Hoje em Dia no último domingo (26) antes do jogo São Paulo x Cruzeiro.



A mudança de esquema do Cruzeiro, indiretamente, vai dirimir o número de erros de alguns comentaristas…



Salvando alguns comentaristas


Terceiro homem do meio-campo. Segundo atacante. Dupla de frente. Jargões do futebol. Utilizados largamente na imprensa, inclusive atualmente. Usualmente, porém, não só de maneira equivocada; mas desnudando um desconhecimento muito básico.


O grande problema está no fato de que muitos jornalistas aplicam esses vocábulos a times que simplesmente não possuem nada disso, nenhuma dessas figuras. Nem a tal dupla de ataque. Esse defeito de análise, diga-se, assaz comum na mídia mineira, não se mostra rotineiro nos canais fechados especializados, por exemplo.


Há anos o 4-2-3-1 se estabeleceu como o esquema mais comum no Brasil e no mundo. Muito já escrevi sobre o tema, sobre a quantidade de equipes tupiniquins que adotam esse sistema. Em coluna recente, na Folha, PVC disse que 16 dos 20 times da Série A estão adotando essa formação.


Incrivelmente desatualizados a respeito de algo básico de suas profissões – desatualizados seria se tivessem cometendo esse deslize há dois anos; hoje precisamos inventar outro nome para tamanha cegueira –, certos jornalistas seguem pensando o futebol sempre tendo um 4-4-2 bem típico do futebol brasileiro na cabeça. Até quando estão “analisando” um conjunto que adota o 4-2-3-1. O erro é tão essencial, tão na base da coisa, que quase sempre toda a opinião acaba, de algum modo, contaminada, invalidada.



No tipo de 4-4-2 citado, via-se normalmente dois volantes e uma dupla de armadores; um destes meias, porém, frequentemente segurava mais a onda, era menos livre para apenas criar, tendo certa obrigação de preencher os espaços, marcar: eis, portanto, o terceiro homem do meio-campo. Tradicionalmente, na distribuição dos jogadores aqui analisada, escalava-se dois atacantes: um de área, e outro que se deslocava pelos lados, se movimentava; logo, fazia sentido falar tanto de segundo atacante (esse cara de mais velocidade, de beirada) quanto de dupla de frente.



Vale destacar: o 4-4-2 brasileiro de raiz é bem diferente do 4-4-2 europeu, também chamado de “à inglesa”, com duas linhas de quatro e dois atletas lá na frente. Este ainda aparece regularmente mundo afora. A versão tupiniquim nunca saiu muito daqui. E como no país quase todos andam escolhendo o 4-2-3-1 (ou o 4-1-4-1), ela sumiu. A diferença básica é que na maneira europeia de aplicar o 4-4-2 o time parece mais sisudo, ao menos a priori, em função de um meio que se posiciona em linha. Na forma brasileira, teoricamente, os quatro do meio-campo se espalham de maneira mais dinâmica; os armadores não são wingers; atuam prioritariamente pelo centro, porém claramente à frente dos dois volantes, e não com eles em linha.



Nas últimas duas partidas, Luxa mudou o esquema no Cruzeiro. Escolheu o velho e bom 4-4-2 tupiniquim (conhecido também como 4-2-2-2, quando se separa os volantes dos meias na hora de nomear o sistema). Neste formato, a Raposa está com um segundo atacante (Marinho); apresenta também uma dupla de frente (Marinho e Joel começaram jogando em ambas as partidas). Dessa maneira, portanto, Luxemburgo, pelo menos por enquanto, está salvando muita gente de cometer algumas gafes por aí.



E quanto ao terceiro homem de meio-campo? Luxa tem jogado com Arrascaeta e Marcos Vinícius como armadores. Normalmente, contudo, eles têm ficado bastante lado a lado, sem uma diferença tão brusca de quem é o mais recuado (os dois ajudam a recompor, e há uma variação de quem volta mais dependendo das próprias circunstâncias do lance da partida). O Uruguaio tem o centro como posicionamento original, mas com orientação de buscar o flanco esquerdo com boa frequência.

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Fanatismo por um clube faz sentido?

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 107 comentários



Muitos, ao conhecerem os bastidores do futebol, suspiram: “e pensar que tem gente que ‘se mata’ por isso…”.



Fanatismo por um clube faz sentido?


Sinto falta da atmosfera que vivi, na infância e adolescência, nos campos de futebol. Isso acabou. Há algo diferente no ar, não adianta. Os estádios brasileiros não são mais os mesmos. E quem acompanha sempre meus textos, deve estar estafado de tanto me ouvir criticar a elitização do esporte bretão, a frieza das arenas. A estes, peço desculpas. No fundo, a intenção, o vício é tentar abordar a modalidade num sentido mais amplo; naquilo que ela se relaciona com a cultura, o comportamento humano.


Ao mesmo tempo em que tenho certa preguiça de quem vai ao campo como se estivesse a caminho da Na Sala, da turma do selfie, do coraçãozinho; de quem frequenta esses espaços sem qualquer ínfima familiaridade com a cultura do futebol, não sei se o caminho é aplaudir determinado típico de fanático. Na crítica aos coxinhas – correta – muitas vezes surge, direta ou indiretamente, um culto ao tarado por um clube; aquele ser incapaz de enxergar um metro à frente quando se fala da sua agremiação – e colocar esse adepto cego como paradigma, honestamente, não me parece inteligente.


Quanto mais uma pessoa minimamente dotada de percepção conhece os bastidores do futebol, mais ela pensa: “e imaginar que tem um monte de gente ‘se matando’ – às vezes literalmente, sem aspas – por isso”… Por quê? Ora… Saber como as coisas funcionam, como costumam ser os dirigentes, os treinadores, os jogadores, confesso, não ajuda. Era do profissionalismo? Fim do “amor à camisa”? Vá lá, normal; em determinada acepção, até certo grau, passa, nenhum problema. Mas no fundo, o cenário é pior, o buraco é mais embaixo. A ausência de essência nos mais diversos sentidos, de qualquer centelha de vínculo, de identidade e algo verdadeiramente em comum, de unidade entre aqueles que teoricamente representam a torcida é grande demais para que se encontre bom senso, ajuda da argumentação racional para a adoção radical.


Sem falar na podridão envolta em boa parte dos protagonistas por quem as pessoas gritam – cartolas, mas não somente. Se soubessem…


Não se trata de impor maneiras de torcer. Cada um tem o seu jeito. Mas nesses dois tipos comuns – o coxinha e o tarado cego – o ridículo é latente, e negá-lo é atraso intelectual – da mesma maneira que reconhece-lo não é condenação, falta de respeito, diminuição da pessoa.



Ao longo do tempo, a esmagadora maioria dos clubes do mundo perdeu demais suas raízes – se é que as possuíam. Tudo ficou muito solto, sem referencial, misturado. Não há uma ideia por trás da agremiação, representada em campo, à qual se possa apegar. Jogadores aleatoriamente reunidos para correrem “por ela”, mas nenhum sinal de filosofia; de estilo típico daquele clube; de uma cultura que foi cultivada, preservada. De algo que seja o mantra desta instituição, permaneça vivo nas partidas, seja o critério para o recrutamento e a formação dos atletas – que estariam lá em nome desses mandamentos, por com eles terem boa dose de identificação –, a torne única – e justifique a escolha, dê pelo menos um pouco de sentido à idolatria (ou algo parecido).



Nos Estados Unidos, claramente, trata-se o esporte como entretenimento. A relação torcedor-clube – na realidade chamam-se franquias, o que já dá o tom da coisa – na terra do Tio Sam é completamente diferente. Muitos defendem que a cultura do torcedor mais desapegado representa sinal de maturidade da sociedade. Pode ser. Mas aqui, até pela falta de espaço para desenvolver o que penso, colocar as devidas relativizações que gostaria a esta proposição, prefiro apenas abrir o espaço para o diálogo com o leitor, saber a opinião dos consumidores de conteúdo do jornalismo esportivo.

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Coxinha x fanático

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 63 comentários



Se na humanidade só existem essas duas possibilidades, me avisem que desisto dela de vez.



Coxinha x fanático


Há muito tempo venho falando, com bastante frequência, da elitização do futebol. De como o povo e, usualmente, os mais apaixonados, os que mais fazem questão, têm ficado de fora dos estádios.


Na esteira deste assunto critico, há anos, com veemência, aquele comportamento fabricado, típico dos nossos tempos, que se espalha cada vez mais também nas arenas pasteurizadas edificadas com o “suor” da FIFA e das nossas “puras” empreiteiras: preocupação com selfies sorridentes quando o time do coração está levando de três no lombo; coraçõezinhos feitos com as mãos assim que surge aquela miragem, aquela entidade máxima da cultura do aparício (a câmera); ver e ser visto, projetar-se feliz na redes sociais enquanto motor de cada momento, em detrimento do bom e velho curtir o instante; a fatídica e maldita câmera do beijo, que, em si, já exala normalmente o ridículo, e que hoje, como se não bastasse, foi piorada com a criação daquelas cenas supostamente engraçadas por serem teoricamente acidentais, mas, no fundo, inacreditavelmente grotescas por serem escancaradamente combinadas (num estilo que remete, sei lá, tanto a um Teste de Fidelidade da vida, apregoado por João Kléber, quanto à escola do Telecatch); o sujeito que, no fundo, não se importa muito com o resultado, mas fica sempre alerta à possibilidade de aparecer na TV – e quando esta surge, parece possuído, sentindo-se na obrigação de gesticular, gritar, vociferar com os olhos arregalados seu palpite para o jogo (e no fundo, sabemos que aquilo é forçado).


Muita gente, apesar de o paralelo claramente não existir, rebate jornalistas que fazem essas críticas – eu, Mauro Cezar Pereira, José Trajano, entre outros – com a pergunta: “mas o que vocês querem? Violência, estádios precários, banheiros sujos, torcidas organizadas mandando?”. Óbvio que não. Se na humanidade só existem essas duas possibilidades – ser coxinha, sem personalidade, sem sal, ou tosco, violento, animalesco –, me avisem que desisto dela de vez. Portanto, para deixar ainda mais cristalino: a oposição ao cenário de um futebol despido de alma, que hoje vigora, nada tem a ver com agressões físicas, gangues, ataques aos rivais; tampouco com espaços físicos sem qualquer estrutura.


O comportamento que, de maneira inteligente, dá para colocar como o oposto ao do torcedor coxinha típico – e que merece ser discutido –, é o do fanático – não violento, já que este, criminoso, faz jus as já conhecidas críticas, deve ser abolido. Aquele que se desespera demais com o time; que se importa em excesso com aquilo; que parece enxergar na trajetória do seu clube a odisseia da sua própria existência, como se ele, literalmente – a despeito da óbvia distância que possui do real protagonismo na disputa –, estivesse em jogo no gramado; a sua vida. Convenhamos, não está. É insensato torcer assim. Não tem o menor sentido se importar assim. Em última análise, determinado tipo de fanatismo por uma equipe de futebol é bobo.


Esta é, verdadeiramente, a ressalva necessária a ser feita às críticas contra nosso futebol esterilizado e ao adepto típico desses tempos insípidos – as críticas aos dois polos não são excludentes e, ambos, no fundo, têm doses cavalares do ridículo; coloco “ressalva” ali num sentido de acréscimo, ponderação.


Por que o fanatismo é bobo, insensato? Por que não faz sentido esse tipo de relação com a querida agremiação do ludopédio? Na próxima coluna, prossigo no tema.

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