×

Um estranho no ninho

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 174 comentários


No reino da mentira, no país do tapinha nas costas, falar a verdade é tão raro quanto pode ser prejudicial.


Um estranho no ninho


No país do compadrio, do tapinha nas costas, do conchavo; no reino dos puxa-sacos quase patológicos, do falso calor humano; de um suposto humanismo, de uma afabilidade fabricada, dizer verdades puras, fugir do politicamente correto, ser mais distante e, em determinado aspecto, mais objetivo, pragmático, sem rodeios, costuma prejudicar bastante. Muricy Ramalho… Um personagem e tanto.


Ranzinza. Austero. Mal-educado. De mal com a vida. Mal-humorado. Adjetivos comumente aplicados ao treinador do São Paulo. De fato, no passado, exagerou aqui e ali. Sinceridade, sim. Falta de elegância, cortesia, não. Me incomodaram, principalmente, episódios nos quais perdeu a linha, mostrou-se impaciente e extremamente grosso com algumas mulheres, repórteres. Isso não se faz. Porém, mesmo naquela época, além de já admirá-lo como pessoa, técnico consistente, vitorioso, dos poucos realmente confiáveis, acreditava que, se os deslizes aconteciam, em maior medida, reinavam a originalidade e uma espécie de carisma às avessas.


O que quero dizer é: no frigir dos ovos, até no que tange às entrevistas, ao comportamento, à persona pública, Muricy merecia mais elogios do que críticas. Afinal, era dos poucos que saiam do lugar-comum, que tinham algo a dizer, falavam verdadeiramente com o coração, com a alma, e o cérebro. Ademais, o nível geral das perguntas nas famigeradas coletivas de imprensa não poderia ser pior. E de vez em quando – óbvio que sem ultrapassar certos limites, sem cair na agressão gratuita –, justamente por isso, os jornalistas precisam, merecem ter de lidar com alguma “hostilidade intelectual”, alguma réplica firme, que flerte ou escancare a baixeza do questionamento.


Ultimamente, Muricy passou a assumir tom mais ameno, sábio. Deixou os lampejos, os rompantes de falta de educação de lado. Manteve, contudo, a autenticidade, a sinceridade, a qualidade e a veracidade das análises. Ou seja: chegou ao ponto ideal, ao melhor dos mundos.


Desde o ano passado, a diretoria do São Paulo tem se mostrado desastrosa nas declarações públicas de seus membros e, mais grave, em determinados movimentos internos. Entre eles, o ensaio de um processo de “fritura” de Muricy. Num episódio que unia as duas coisas – sendo elas, a cobrança insensata do treinador, e a inaptidão para se expressar pela mídia – o presidente tricolor Carlos Miguel Aidar, em papo com a imprensa, disparou que o técnico atual do São Paulo tinha obrigação de ganhar títulos com a equipe que comanda. Surreal.


O tricolor paulista tem mesmo um belo elenco. Um dos melhores do país. Demandar bons resultados de maneira ampla, dentro de um bom senso; cobrar que o clube atinja determinado patamar, certo sucesso mínimo que seria compatível com os investimentos, a realidade do plantel, tudo bem, estaria certo. Mas exigir títulos, no Brasil, mesmo com um grupo muito bom, é pura falta de noção. Por quê? Simplesmente, pelo fato de haver um número considerável de adversários similares ao São Paulo em termos de força, técnica, qualidade, imponência. Alguns parecidos nesses quesitos e também nos cofres – outros igualmente fortes e um tanto mais pobres.


Muricy, no último sábado, não afinando para os poderosos – mas sem resvalar no desrespeito à hierarquia –, como era de se esperar, criticou com inteligência alguns movimentos dotados de moral duvidosa realizados por pessoas importantes nos bastidores do clube, e discursou de maneira contundente contra a inversão de valores, a falta de ética e a hipocrisia que pairam no futebol. Tomara que não seja, mais uma vez, prejudicado pelas virtudes que carrega.

Compartilhe:
  • Print
  • Facebook
  • Twitter