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Piada Olímpica

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 780 comentários


Também nos bastidores da cobertura da imprensa, a insensatez impera na Olimpíada.


Piada Olímpica


Quando vão analisar a organização de grandes eventos, os jornalistas precisam ter a percepção para, apenas na medida correta, sem exageros, contextualizar os problemas que encontram especificamente dentro das suas áreas. Não é o que vemos com frequência. Muitas vezes enxergamos comunicadores que, por exemplo, ao terem dificuldades com conexão de Internet no centro de mídia, saem proferindo impropérios generalistas, taxativos acerca da capacidade de gestão de determinado país, alguma entidade. Menos, menos… A competição não é apenas para você, meu caro periodista…


Filas, alimentação, estrutura, eficiência e qualidade na transmissão de informações, no esclarecimento de dúvidas: tudo isso para o público, não para uma classe específica; estes são os pontos mais importantes a serem abordados em qualquer avaliação de disputas de grande porte. Portanto, feito o exposto, as questões que listarei a seguir não configuram o choro condescendente de quem se dá importância demais e não consegue manter a imparcialidade no instante em que sofre alguma espécie de contratempo; tampouco funcionam como argumentos definitivos a respeito da Olimpíada em geral: tratam-se somente de temas minimamente dignos da menção, de sugestões para melhorar, até porque, em diferentes acepções, o trabalho dos veículos se entrelaça com a fruição que a audiência do mundo inteiro terá do evento.


Na cobertura dos Jogos existem basicamente dois tipos de credenciais: as das empresas que pagaram pelos direitos de transmissão (caso da Itatiaia, para quem estou trabalhando aqui no Rio), e as que não envolvem qualquer tipo de transação financeira. Estas últimas normalmente são concedidas a jornais impressos, revistas, sites – mas não somente. Com elas, não se pode fazer nada além de colher e divulgar certos tipos de informação; se está apto para fazer a cobertura – apurar, entrevistar (dentro de alguns limites) –, mas é proibido passar os confrontos em si.


Pois bem… Está além de qualquer compreensão, lógica, justiça e sentido, a maneira como os espaços para assistir aos duelos nas arenas, e as posições para entrevistar os personagens nas zonas mistas é organizada pelos encarregados de pensar a logística nessas searas. Incrível, surreal é notar, o tempo todo, em todos os locais de disputa, uma vantagem constante e muitas vezes gritante justamente para os profissionais de veículos que não pagaram pelos direitos de transmissão – salvo uma ou outra empresa especifica, dentro do já seleto grupo de compradores que, num erro diametralmente oposto, recebe privilégios acima do natural, do bom senso, da justiça e do que seria previsto no que foi pago por cada um. Isso mesmo. E vejam bem: nem defendo o contrário, ou seja: que os “pagadores” devam ter posição altamente privilegiada; que o direito de informar seja cerceado. O ideal – e não me parece difícil, principalmente considerando o tamanho de uma Olimpíada, o dinheiro envolvido – é que todos tenham ótimos espaços, condições condizentes com o bom exercício da profissão: afinal, a mídia não apenas é a porta-voz para a população – que é a razão de ser do evento, em última análise –, como se entrelaça em cada detalhe com o tamanho, a importância da competição, com o fato de ela e o esporte em geral ter se transformado numa indústria que enriquece justamente muitos desses organizadores e responsáveis pelas logísticas. E o que tenho visto é o grotesco se materializar quando os representantes de veículos que se esforçaram, fizeram complicadas operações comercialmente para vender anúncios, se programaram para poder pagar algo tão caro – direitos de transmissão – são preteridos, perdem largamente para quem nada investiu. A ponto de eu, várias vezes, proferir algo no seguinte sentido com algumas pessoas aqui: “estou quase ‘pedindo de volta o dinheiro pago’ pelos meus direitos, ‘piorando’ minha credencial para ter mais tranquilidade para trabalhar”.


Em texto vindouro completo a análise com exemplos concretos destes fatos anunciados e explicações de como eles se relacionam com o produto que o público recebe em casa.

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Bastidores da Olimpíada

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 245 comentários


Todos os companheiros brasileiros que já estiveram em outros jogos com os quais conversei são unânimes: a organização deste, infelizmente, tem sido a pior.


Bastidores da Olimpíada


Entre o ufanismo cego de alguns Brazucas, e a má vontade quase regozijante de certos estrangeiros, é preciso encontrar o caminho correto, julgar com sabedoria e bom senso; longe dos clichês, mas sem perder o espírito crítico, a imparcialidade. Cheguei ao Rio no dia da abertura, pela manhã. A cerimônia que marcou o pontapé inicial dos jogos foi bonita; talvez tenha sido levemente superestimada por parte da imprensa local, mas enfim… Começamos bem, passamos no teste inicial. Agora, a partir daí… Nos bastidores da Olimpíada, no cotidiano, na logística criada para os jornalistas… Em vários aspectos, infelizmente, um caos; em muitos outros, apenas “muito ruim”.


Na saída do Maracanã, após o show de boas-vindas da última sexta, uma bagunça inacreditável para pegarmos o ônibus que levaria os comunicadores para o IBC – o centro de mídia do evento. Nenhuma fila, nenhuma instrução; funcionários e voluntários completamente desinformados. Os veículos chegavam e cada hora paravam em um lugar diferente. Para conseguir entrar, estávamos sob as rédeas da sorte, do acaso, e, por que não, da lei do mais forte. Dentro do ônibus, que só se pegava antes de no mínimo duas horas de espera por um golpe mágico do circunstancial, um capítulo à parte…


Superlotação muito, muito além mesmo do que vemos na hora do rush de qualquer cidade grande. Totalmente acima do que seria permitido por qualquer dispositivo legal. Fui sentado próximo ao motorista, jogado na painel que o ladeava, encostado no vidro da frente; tinha de abaixar a cabeça para ele enxergar o retrovisor direito; Emerson Romano, companheiro de várias horas aqui na cidade maravilhosa, foi na escada mais próxima da porta da frente, escorado nela. O piloto da nossa jornada? Que figura! Nem Rubem Braga, tampouco Nelson Rodrigues, ambos cronistas de mão-cheia e conhecedores profundos do que se chama de alma carioca, conseguiriam imaginar personagem tão peculiar e caricato; tão genuíno, tão natural. Gente fina, boa praça; mas não sabia o caminho para o lugar onde deveria nos levar. E o pior – ou o melhor, dependendo do ponto de vista: o diálogo dele falando ao celular enquanto dirigia – não, e nem era num bluetooth, no viva-voz; o sujeito segurava livre e alegremente o celular com sua mão esquerda. Como escritor me arrependo amargamente de não ter anotado, de ter esquecido as palavras que ele usava, o jeito com o qual o cara se expressava; com a cabeça esgotada de quem havia virado a noite anterior, e trabalhara durante todo o dia, me distraí e não pude armazenar no nosso fluído e complicado HD; só sei que, entre outros tópicos, o motorista versava – no papo com outros condutores que exerciam ali exatamente a mesma função de transportar a imprensa – a respeito dos trajetos; como chegar aqui, o que fazer ali; “onde você está?”; “vou te esperar para irmos juntos, vou devagar para você me alcançar”; “e o fulano? Fala para ele dar um migué e parar o carro para nós o alcançarmos; preciso seguir alguém!”. Coisas assim foram disparadas neste diálogo que nem Buñuel, do alto de seu surrealismo, e banhado por vários de seus famosos Martinis, poderia elucubrar.


Há muito ainda para transmitir nessas searas. Aos poucos vou escrevendo sobre os detalhes dos jogos. Por enquanto, acrescento apenas: a estrutura para a alimentação dos jornalistas na maior parte dos lugares deixa muito a desejar em vários aspectos – a ponto de, em centro olímpico de tiro, no sábado, a lanchonete não ter NENHUM dos alimentos anunciados; apenas as bebidas lá estavam disponíveis. Isso quer dizer que consegui ao menos beber água? Não! Afinal, conseguiram a proeza de não aceitar dinheiro. Isso mesmo. Não por falta de troco, nada. Segundo a atendente, a “logística para eles passarem a aceitar notas e moedas só chegaria no dia seguinte”. Só se podia pagar com o cartão da bandeira que patrocina os jogos. E nada mais.

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Verdades inconvenientes

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 421 comentários


A atuação do Estado é ridícula? Sim! Mas a falta de interesse das pessoas precisa ser contextualizada…


Verdades inconvenientes


Olimpíada: época em que proliferam-se no Brasil os discursos versando sobre a falta de apoio do poder público para zilhões de modalidades – somente para, um segundo depois, nunca mais se falar nisso; até os próximos quatro anos… Há alguma mentira nesse tipo de fala? Não. Desde que me entendo por gente nenhum governo, no nosso país, do PSDB ou do PT, teve uma política esportiva minimamente elogiável num âmbito macro, geral. Entretanto, o “problema” dessas reclamações não se limita apenas à constatação de que boa parte de seus arautos é composta por oportunistas e/ou sujeitos que não se enquadram infimamente no perfil de jornalista/cidadão intelectualizado/crítico (muitos arrotam tais cobranças simplesmente porque “pega bem”, e o fazem sem a devida substância, sem o risco de realmente se comprometer com alguém; em suma, sem colocar o dedo na ferida devidamente, apenas com a pose de “questionador”); o buraco é mais embaixo: num contexto amplo, somadas essas colocações, fica-se com a impressão de que, invariavelmente, elas simplificam, minimizam, deixam de fora pontos centrais. Sim, a classe política no Brasil é risível e, basicamente, não sabe fazer nada; mas e o futebol, é bem tratado por algum órgão do Estado – ou pela própria CBF? Claro que não.


A principal ideia aqui é: se “nossos representantes” precisam, verdadeiramente, trabalhar MUITO melhor a questão dos esportes – não somente –, se eles mostram-se, de modo inquestionável, inteiramente ineptos para gerir nessa área, será que, independentemente disso – ainda que esses defeitos não fossem reais – , se conseguiria criar competições sustentáveis para muitíssimas modalidades, pintar o cenário de conto de fadas que certas pessoas pedem somente com apoio/dinheiro público? Será que o fato de o Brasil ser um dos países no planeta com a cultura esportiva mais limitada, mais monotemática – só se pensa em futebol –, em todas as esferas, não há de entrar na análise? Nessa linha: a carência de interesse de uma quantidade mínima de pessoas por 99,9% das modalidades não precisa ser lembrada? E o papel da imprensa, que morre de medo de sair da zona de conforto, “arriscar” sua audiência passando/falando de qualquer coisa que não seja do esporte bretão – vá lá, um pouco de vôlei e, uma vez a cada mil anos, quando surge alguém midiático faturando títulos graúdos (Guga, Medina…), concede-se alguns efêmeros instantes ao céu para algo mais “alternativo”?


A situação da esmagadora maioria de modalidades esportivas no Brasil é, em diferentes sentidos, similar à de quase toda manifestação cultural que não seja massificada, popularesca: no nosso país não costuma existir um contingente mínimo de pessoas interessadas e dispostas a gastar com produtos/eventos que saem do eminentemente mainstream – que no caso do Brasil, no mundo dos esportes, é só o futebol; assim, do mesmo modo que não se encontra quantidade suficiente de indivíduos para criar, solidificar uma cena indie musical capaz de possibilitar que bandas dessa área sobrevivam de sua arte; do mesmo jeito que não há leitores num patamar satisfatório para que escritores de literatura séria/artisticamente relevante/ambiciosa vivam de direitos autorais, não se tem público consumidor adequado para movimentar cenários/competições minimamente autossustentáveis de quase todas as modalidades esportivas existentes.


O governo teria obrigação de amenizar esses pontos, tentar mudá-los, de melhorar sua atuação e, consequentemente, o quadro vigente tanto na cultura quanto no esporte? Sim – tendo em vista nosso tipo de sistema político! Mas nem sempre, ainda que ele fosse ligeiramente digno – ou até espetacular –, conseguir-se-ia abrir horizontes de maneira razoável para muitos dos pleiteantes – ou dos coitadinhos defendidos. Pelo menos em médio prazo.


Ressaltemos: seria plausível aprofundar destacando as diferentes possibilidades existentes relativas ao papel que um Estado pode ter, variantes, entre outras coisas, no que concerne à quantidade e ao tipo de intervenção na economia e em distintas áreas da sociedade; em suma e em determinado sentido, ao caráter provedor – mas não unicamente. Sem entrar nesse mérito, por ora digamos apenas que, mesmo no caso da eventual defesa de um Estado total e integralmente “participativo”, “paternalista” – ou de algo exatamente oposto –, não se anula o valor da reflexão em torno dos assuntos aqui propostos. No mínimo para efeitos teóricos, intelectuais, ligados à qualidade do debate, levando-se em conta o mundo como ele é hoje, esta tem sua relevância.

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Torcedor infantilizado

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 437 comentários


No Brasil, muitas vezes, para discutir futebol é preciso deixar o cérebro em stand by…


Torcedor infantilizado


No documentário “Lord Don’t Slow Me Down” (2007), Noel Gallagher, cérebro do Oasis e torcedor fanático do Manchester City, ao passar em frente ao estádio do seu time do coração, em determinado momento, diz algo como, suspirando: “o templo do mau futebol…”. O episódio ocorreu em 2005, quando o Oasis fez três shows lotados no novo palco dos Citizens – este colunista teve o prazer de estar em um deles. O City of Manchester Stadium havia sido inaugurado em 2002 para o atletismo e 2003 para o futebol. Antes, a equipe azul de Manchester jogava no Maine Road, onde o Oasis realizou shows históricos em 1996. Vale lembrar: em 2005, quando Noel proferiu a frase carregada da mais típica ironia inglesa, o City ainda não tinha sido comprado pelo bilionário grupo árabe que ainda o controla (o que aconteceu apenas em 2008; curiosamente, umas das primeiras contratações de considerável impacto, caras, desta nova fase do clube, foi Robinho, que vinha do Real Madrid). Logo, as palavras do guitarrista/torcedor símbolo ainda faziam sentido: o time era, de fato, ruim. E pior: tinha como vizinho e rival um dos maiores do mundo, o Manchester United, que da década de 90 até aquele momento dominara completamente o futebol inglês.


Durante as várias vezes em que estive na Inglaterra, e mesmo observando a cultura daquele país de longe, pude comprovar, por meio dos mais variados exemplos, que esse tipo de relação que Noel, enquanto torcedor completamente fanático, tem com o seu time, é bastante comum por lá. Com pequenas variações, em geral, em termos análogos, o mesmo vale para boa parte da Europa – e até para os Estados Unidos, onde, claro, o chamado fanatismo costuma ser diferente e as agremiações (franquias) adoradas são de outros esportes.


O que quero dizer com isso? Que nesses lugares, por mais apaixonados, fanáticos que sejam, os torcedores – quer dizer, pelo menos grande fatia deles – não costumam deixar o cérebro em stand by quando vão falar do seu clube; eles não precisam brigar com fatos, entrar num estado de negação quase inacreditável para não reconhecer verdades que soam ruins para suas instituições tão queridas. Eles amam o clube, e pronto. Para “embasar” esse sentimento, não necessitam de, como crianças em estado pré-racional, fazer rodeios retóricos, pirracentos, para tentar “ganhar” no grito discussões que às vezes passam por fatos tão simples quanto inquestionáveis – por exemplo, clara disparidade quanto a um rival em número de títulos e/ou tamanho de torcida; em muitos casos, basta contar, não há muito debate. E há algum problema em torcer pela agremiação que tem desvantagem nesses quesitos? Não, nenhum.


No Brasil, invariavelmente, ser adepto realmente fervoroso envolve, em grande medida, colossal descompromisso com a razão. Por essas e outras, muito comum é o cenário em que determinada pessoa dotada, digamos, de uma honestidade intelectual mais aguçada, de um espirito minimamente racional, por mais que adore o futebol e um clube, tenha preguiça de debater sobre este esporte em escolas, faculdades, escritórios, bares… A infantilização, a cegueira, a bobagem incomodam.


O curioso – e talvez mais prejudicial – nesta história toda é que, a imprensa, com medo de desagradar parte do público, dotada do seu comum e nefasto ranço populista, à sua maneira e em graus distintos, frequentemente também deixa a razão de lado, não tem coragem para dizer certas verdades. “Tem coisa que não dá para falar…”. Nisso, diversas vezes, o debate midiático também fica bobo. E faz rodeios demais onde não deveria…

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Inversão de valores no Cruzeiro

públicado em by Cadu Doné em Esportes | 292 comentários


Não se deve querer impor cegamente, acima de qualquer bom senso, determinadas filosofias de futebol…


Inversão de valores no Cruzeiro


Paulo Bento gosta da marcação pressão, avançada, no campo do adversário. Eu também. Mas se apegar a isso – ou a qualquer preferência estratégica – de modo a preterir a técnica, a qualidade dos jogadores em patamares acima de qualquer bom senso, claro, é um erro. Equívoco este que, para sorte de Bruno Ramires, e azar dos cruzeirenses, tem acontecido muito. Sabe aquela história de que o bom treinador deve, acima de tudo, se adaptar ao elenco que possui, escolher sistema, estilo e filosofia condizentes com o plantel? Pois é… Não digo que Bento seja um mau técnico; mas em muitos instantes, o que ele tem feito é querer impor suas ideias independentemente de elas combinarem com as melhores peças a serem selecionadas – ou até sem tentar para valer a execução destes pensamentos com futebolistas que, teoricamente, a priori, aparentemente, não possuem determinadas características num grau suficiente, mas que, quem sabe, poderiam se adaptar, surpreender…


O Cruzeiro, com o português, variou, basicamente, entre três sistemas: o 4-1-4-1/4-3-3, o 4-4-2 com losango no meio – utilizado com a escalação inicial diante do Fluminense – e o 4-2-3-1. Nos dois primeiros citados, tem-se um trio de meio-campistas, de volantes; um mais preso, dois com liberdade maior para avançar. Quando escolhe um destes esquemas, Bento normalmente vem pedindo para essa dupla de volantes mais adiantados sair para o combate, subir a marcação, apertar a saída de bola do adversário. Para um jogador sair do meio, e chegar ao ataque para incomodar os defensores/volantes inimigos, em geral, ele precisa de velocidade; para recompor caso esse combate inicial não seja o suficiente para roubar (ou ao menos quebrar) a bola do oponente, então, nem se fala. Muito da escolha por Bruno Ramires – e do desprestígio de Ariel Cabral – passa por isso. Tanto é que, quando o argentino começou jogando com Bento – diante do Vitória pela Copa do Brasil, e do Atlético-PR –, atuou como primeiro volante – algo inédito desde que chegou ao Cruzeiro.


Por esse mesmo motivo, Bento começou com Bruno Ramires – um pouco mais pela direita – e Allano – um pouco mais pela esquerda – na derrota para o Flu; pelo fato de os dois serem mais rápidos. E sim: neste jogo, Allano foi volante – e não meia-atacante pelas beiradas, como alguns de nossos “especialistas” andaram dizendo por aí. Pensando nesse cenário me toco que provavelmente estas tenham sido as verdadeiras razões por trás de uma espécie de inversão – um tanto inusitada – que o comandante celeste fez na partida contra o Botafogo: naquela oportunidade, com Arrascaeta e Robinho juntos, ele escalou o primeiro como “volante pela esquerda” e o segundo como “ponta do losango”, armador principal – quando o natural, o óbvio, seria o contrário.


Tentar entender o que o treinador pensa, estudá-lo, não é com ele concordar. Nossa mídia precisa ser menos simplória, explorar mais profundamente os aspectos técnicos e táticos do jogo, se informar melhor; compreender motivos é importante sim para criticar decisões. Dito isso: nem por um segundo endosso a “obsessão” que Bento tem mostrado por Bruno Ramires – tampouco a escalação de Allano no jogo passado (muito menos como volante que ajuda na construção) e a citada inversão entre Robinho e Arrascaeta. O treinador precisa compreender que – e aqui falo da escolha mais constante e que, portanto, mais interfere na vida do time –, se Bruno Ramires é, de fato, mais rápido que Cabral, é muito inferior, hoje, no todo; que, entre prós e contras, a conta da escalação dele (sob o argumento de que assim subiria a marcação) não fecha, de jeito nenhum; e que, no fundo, além da deficiência técnica geral que tem mostrado, na realidade, convenhamos, nem na marcação pressão Bruno Ramires vem sendo minimamente útil. Bom senso, Portuga, bom senso… Nada de querer “impor” cegamente, a qualquer preço, suas “filosofias de futebol”…

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